quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

É proibido pensar

E os hits do carnaval 2008 foram "Não vale mais chorar por ele" do sensacional Bonde do Maluco, "Beber, cair e levantar" do magnífico Saia Rodada e a "Dança do Créu" do super-original MC Créu. Bom, todo mundo dançou o créu na velocidade 5, arroxou ao som do "ôo ôo ôoo" e, principalmente, bebeu, caiu e levantou. Mas, como não poderia deixar de ser, sempre existem os ranzinzas caretas que vão taxar todas essas músicas e mais algumas que habitaram as rádios e nossos ouvidos nesse carnaval de nada menos que baixaria.

O fato é o seguinte: existe uma minoria hipócrita, que dita as regras do padrão intelectual burguês, e isso inclui a música popular brasileira. Eles felizmente não têm o poder de ditar o que vai fazer sucesso ou não, mas, ainda assim, são os responsáveis (segundo eles próprios) de classificar o que merece ou não ser chamado de música boa. A coisa funciona mais ou menos assim: se eles podem falar para os outros que gostam, aquilo é bom, se não podem é ruim, brega ou então é baixaria. E pode ter certeza que todas essas jóias sonoras que foram citadas entram na última categoria.

Pura hipocrisia. Na verdade não existe muito critério para definir o que vai entrar em cada uma das subjetivas classificações, no entanto, na prática, quase tudo que vem da Bahia para cima(sem chegar ao hemisfério norte, claro) é baixaria. Simples assim, independente de qualquer puritanismo e sem nenhuma pretensão de entrar no mérito do que é baixaria, simplesmente uma questão de arbítrio.

Pois há quem considere baixaria muitas coisas menos... banais, digamos assim. Ora, muito mais obsceno é ligar o televisor no jornal e assistir as notícias sobre nosso tão querido congresso nacional. É realmente lindo, de fazer acreditar que esse país é uma singela putaria desenfreada. A última das peripécias dos habitantes mais ilustres da Ilha Quadrada foi o escândalo do cartão corporativo. Engraçado foi ver a lista dos pilantras e constatar que tinha professor meu da Unb mais enrolado que lingüiça de venda.

E já que estamos falando do assunto, pôde-se acompanhar essa semana o senhor reitor dessa mesma instituição educacional decorar seu apartamento com nada menos que R$470.000 reais do dinheirinho público. E o melhor, não houve um protesto sequer sobre o assunto. Pelo visto o movimento estudantil está mais preocupado em beber, cair e levantar (isso eu escrevo com conhecimento de causa). E pensar que já lutaram pelo fim da ditadura, pelas eleições diretas, pelo impeachment de um presidente... parece que os caras-pintadas viraram pés-inchados de primeira categoria. Enfim, é triste constatar que a elite pensante do país não seja capaz de, pura e simplesmente, pensar por si só. E não falo só dos universitários não.Nossa minoria formadora de opinião resume seu esforço intelectual em assistir ao Jornal Nacional e ler a revista Veja, e adora se gabar dizendo por aí que é bem informada. Aliás, já havia um tempo que eu não lia a tal revista, por opção mesmo, sempre achei um lixo, tendenciosa e anti-ética. Mas no último mês começaram a chegar uns exemplares de brinde aqui em casa, naquele modelo de incitação ao consumo mais típico de telemarketing (tô só esperando a fatura; eu e o Procon). Ficaram todas mofando no canto da sala, a não ser pela última edição dessa semana que me despertou certo interesse.

A matéria de capa era sobre a renúncia de Fidel Castro e não resisti, fui correndo ler a matéria esperando o pior, já que o título era "Já vai tarde". Para a minha surpresa a matéria não era assim tão ruim quanto eu estava imaginando. Era dezoito mil vezes pior do que a minha concepção jamais pudesse prever. Fiquei enojado com o teor do texto. Simplesmente manipulam os fatos sem pudor, distorcem os acontecimentos, invertem os valores e escarram tudo na nossa cara como se fosse a mais absoluta verdade. Fui compelido a fechar a revista no segundo parágrafo para não vomitar aquele tanto de merda que acabara de atingir meu cérebro. Olha que isso só costumava acontecer quando chegava na coluna de Diogo Mainardi. Já disse que esse país é uma pu-ta-ri-a?

Aliás, Diogo Mainardi é muito admirado por boa parte dessa mesma elite pensante brasileira. Só perde no posto de referência intelectual para o tal do Arnaldo Jabor. Como diz o clichê, seria cômico se não fosse trágico. O fato é que a grande parte dessa minoria que tem acesso a estudo de qualidade e que é considerada a elite cultural do país não é capaz de articular um simples raciocínio por conta própria. É preciso um Jabor da vida pra conseguir concatenar as idéias e falar bonito na televisão para esse povo poder se achar inteligente, mesmo que os discursos do comentarista político (só no Brasil existe isso) sejam vagos de opinião e não apresentem nada que se aproxime de um posicionamento consistente sobre o tema em questão. Talvez por isso que, de vez em sempre, nos chega um texto meia-boca por e-mail e, só por ter o menor tom de inconformismo, seja logo creditado por um babaca qualquer a um desses pseudo-jornalistas famosos.

Fico me perguntando o que será dessa geração que está crescendo ouvindo esse tanto de baboseiras e cada vez mais desencorajada de ter uma opinião própria. Acontece que esse papo de geração perdida já não tem sentido nenhum há algum tempo. A geração que "informa" hoje é a que foi desinformada no passado pela nossa imprensa sem-vergonha, num ciclo vicioso de emburrecimento coletivo. O que esperar de uma juventude que cresceu assistindo o programa da pedófila pornstar rainha dos baixinhos e ouvindo os mamonas assassinas? E a anterior que cresceu vendo pornô-chanchada e o programa do Chacrinha? E a coisa só não é pior porque as gerações anteriores não sabiam direito nem o que era televisão.

Agora alguém me diz qual é a diferença entre sair no carnaval cantando "Mamãe eu quero" e sair cantando o Bonde do Maluco? Ou então "A pipa do vovô não sobe mais" ou "Olha a cabeleira do Zezé"? Pois eu digo qual é a diferença. Esse povo careta, essa elitezinha burguesa que vem criticar o carnaval do povo, é a mesma juventude de outrora que comprava lança-perfume pra jogar na perna dos outros (seus burros!!!). É mole? É a mesma velharada ranzinza que não tem mais habilidade nem disposição pra dançar o créu sequer na velocidade 2, mas que na época de juventude enchia os cornos de birita, "bolinha" e otras cositas mas e perdia a linha do mesmo jeito que se faz atualmente. E ainda ousam criticar o Psirico "do povão" com esse papo de geração perdida.

E é essa mesma ditadura de valores que contuma resumir a enigmática MPB em figuras como Marisa Monte, Djavan e cia. Alguém, pelamordedeus, entende alguma merda que esse Djavan canta? Qual o sentido de "açaí, guardiã, zum de besouro, um ímã. Branca é a tez da manhã"? Sinceramente, isso tem muito menos nexo que qualquer hit da história axé-miusiquiana em todo o tempo de existência do trio-elétrico. E alguém discorda de que se fosse o Só Pra Contrariar que tivesse gravado "Amor I love you" a música seria instituída o novo hino do excesso de breguice?

No fim das contas, tudo faz parte desse processo constante e praticamente imperceptível de imbecilização geral da nação. E já que as opções são fingir que não se mistura e posar de intelectual ou então se enturmar com a massa ignara e sem opinião própria...

Bem, confesso a vocês que eu não consigo a velocidade 5. E dá licença que eu prefiro tomar a minha cerveja e me divertir.

Créeeeeeeeeeeeeuuu!!!!!!!!

5 comentários:

Carla Daniele disse...

Eu até queria comentar alguma coisa, mas eu acho que tu já falou tuuuuudoooo!!! Ah!!! e muito bem por sinal...
Mas eu tô impressionada com tanta revolta!!!!
O que te deu garoto???
Rsrsrsrsr
Beijoooooo!!!!

Octavio disse...

kkkkkkkk...to vendo que a nossa cantoria em Goiânia te inspirou a protestar contra os inimigo do créu e do "ooo ooo oooo ....hum hum".
abraço

Gabriel disse...

Acho que o protesto vale contra os goianos também, que por sinal, não sabem dançar créu nem conhecem o Bonde do Maluco.

Photoshow disse...

Caro Gabriel,
inicialmente gosto muito do palavra "creu", pois aqui prá nós (Ceará) "creu" é dar uma pimbada. Aí o fulano ou fulana foi lá e CREU! Tá ligado?
Bem, mas não podemos generalizar tudo. Existe merda em tudo. Seja no creu, no samba raiz, no rock e caralho a quatro. A prática é o critério da verdade. Se o povo pega tem a ver.(e não é a globo) O que deve ser colocado é a democratização da informação. do acesso. E não ficar só com alguns "papas" dando as cartas. Como no futebo. Alguns críticos se acham o dono da verdade. No mais, é ir de samba no pé e também de "creu" porque no fundo(sem trocadilho) tudo tem o seu valor.
afccoelho@gmail.com

Gabriel disse...

É o que eu prego também, a democratização no acesso à informação. No entanto, no atual panorama de monopólio dos meios de comunicação em nosso país, essa democratização parece ser um tanto quanto intangível. Mesmo com os novos tipos de mídia, com as novas bandas de transmissão proporcionadas pela TV digital, com os projetos de inclusão digital, existe um longo caminho a se trilhar para uma melhora do cenário do acesso a informação de qualidade no país.